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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
Morreu Joseph Ki-Zerbo (1922-2006)

 

 

 Joseph Ki-Zerbo e Leopoldo Amado, 2003 - Praça de São Pedro - Santa Sé

Por: Leopoldo Amado

Morreu Joseph Ki-Zerbo, inquestionavelmente, uma grande perda para o continente africano. Do meu lado – e creio que da maior parte dos estudiosos de África –, Ki-Zerbo era uma figura respeitada e respeitável, não somente pelo seu invejável percurso profissional e político, mas igualmente pela sua personalidade humilde e a sua permanente postura de combate: combates pela História de África; combates pela dignificação do mister político; combates pela melhoria do nível de vida das populações africanas; combates pela utilização racional e sustentado dos recursos naturais e, ultimamente – como pude pessoalmente constatar –, combates por uma ordem nova que permitiria que África acertasse o passo com a evolução da humanidade.

 

Porém, quis o acaso e a sorte que eu tivesse tido o privilégio de conhecer este homem em circunstâncias muito particulares. Com efeito, quando concluímos o livro “O Meu Testemunho, Guiné-Bissau e Cabo Verde – Uma Luta, um Partido, Dois Países, Editorial Noticias, 2003”, eu e Aristides Pereira cogitamos demoradamente em alguém que pudéssemos convidar para prefaciar a obra. Após quase um mês de hesitações, e quando ainda equacionávamos os perfis de várias personalidades e académicos, Aristides Pereira acedeu de imediato à minha proposta que recaiu em Ki-Zerbo, na medida em que era já um conhecido seu e, inquestionavelmente, um historiador africano de referência, para além de militante fervoroso e fundador (na década de 50 em Dakar) do Movimento de Libertação Nacional, tendo na década de 60 permanecido em Conakry por algum tempo, numa altura em que esta cidade era o epicentro das acções políticas de variadíssimos movimentos de libertação, desde o PAIGC ao MPLA e ao UPC (Union des Populations du Cameroun), este último dirigido na época por Félix Moumié.

 

Assim, por intermédio do deligente Pedro Godinho Gomes, que se encontrava na altura em Burkina Faso, estabelecemos imediatamente contacto com Ki-Zerbo, a quem formulamos o convite a que anuiu prontatamente, pedindo-nos, curiosamente, que não preocupássemos com o facto de a obra estar escrita em português, pois aprendera minimamente a lidar com esta língua nos seus contactos com arquivos e bibliografia portuguesas. Todavia, ainda lamentou não nos poder receber de imediato em Ouagadougou, pois iria para a Itália, onde seria homenageado numa cerimónia pública organizada pela Universidade de Pádua, para além de uma série de outras conferências que aprazou com várias universidades em Roma, nomeadamente a Pontifícia do Vaticano. Todavia, passado mais ou menos duas semana da data em que lhe remetemos por DHL uma cópia do trabalho, Ki-Zerbo enviou-nos um e-mail com o titilo “SOS” em que dizia que “não obstante entender o essencial, havia aspectos cruciais que gostaria de apreciar connosco”, propondo, para esse fim, que se aproveitasse a sua estada em Roma e se estabelecesse um plano de trabalho de mais ou menos cinco dias.

 

Estabelecido o programa de trabalhos e aprazado o encontro, viajei de Lisboa para Roma nos finais de Outono de 2003. Nessa cidade, após ter telefonado ao seu contacto (Monsenhor Charles Niamba), este confirmou-me um primeiro encontro de cortesia com Ki-Zerbo na Praça de São Pedro, no Vaticano. Quando ali cheguei, havia milhares de peregrinos de toda a proveniência, inclusivamente de África, pelo que comecei a pensar que muito provavelmente não encontraria Ki-Zerbo, logo eu que não tinha a mínima ideia de como ele era, apesar de conhecer e apreciar muito a sua obra. Assim, após ter deambulado sem sucesso por entre os peregrinos, na tentativa de o desencantar entre a multidão, quedei-me desiludido, a espera que algum milagre acontecesse. E aconteceu: Ki-Zerbo e a esposa (Madame Aicha, se bem me lembro do nome), vieram até perto de mim e, num português que só pecava pelo acentuado sotoque francês com que foi pronunciado, disse-me: “Bom dia”. Após as efusivas apresentações e cumprimentos, Ki-Zerbo confessou-me de que era um católico inveterado e grande admirador de João Paulo II, pedindo-me que passássemos doravante a encontrar ali antes de trabalharmos e que assistíssemos, naquele momento, a homilia do Papa, que começaria pouco depois. Seguidamente, caminhamos à pé para um convento feminino, situado na circunvizinhança do Vaticano, onde Ki-Zerbo e a mulher tinham sido alojados pela Universidade Pontifícia de Roma e, no qual, passamos em revista o programa de trabalhos e realizamos, nos dias seguintes, todas as sessões previstas.

 

Efectivamente, eu e o Ki-Zerbo encontrávamos religiosamente todos os dias de manhãna Praça de São Pedro, no Vaticano, onde  aprendi, aliás, a observar paciente e discretamente os seus gestos e atitudes quando se entregava às meditações e preces, antes de nos ancorarmos às pacientes e prolongadas sessões de trabalho que fazia questão de conduzir de forma humilde mas professoral. Na realidade, Ki-Zerbo tinha imensas notas manuscritas nas margens das páginas do trabalho que enviáramos, as quais fez questão de comentar com redobrada sapiência e cuidada contextualização históricas, de resto, aspectos que em mim reconfirmaram a ideia inicial com que viajei para Roma, isto é, de que ia encontrar-me em pessoa com uma das melhores cabeças pensantes de África, em suma, um sábio e um verdadeiro detentor do sentido da História africana.

 

Admirou-me, outrossim, a jovialidade de Ki-Zerbo que, não obstante a sua avançada idade (na altura, era já um octogenário), nunca se cansava de transmitir estímulos às novas gerações no sentido de alguma se fazer para inverter o actual caótico cenário em que se encontra mergulhado a África. Falava lenta e compassadamente, mas contagiava tudo e todos com as suas sonantes gargalhadas e o seu aguçado sentido critico e de humor. Lembro-me com saudade de um memorável jantar que me convidou a fim de selarmos a amizade e comemorarmos o final dos trabalhos. Aí, para além da Madame Aicha, tomou igualmente parte o reverendo Niamba (seu compatriota e prelado-estudante no Vaticano), onde, bem disposto e num ambiente descontraído, ele se revelou em toda a extensão do termo: apreciou um bom prato, fez jus ao Baco, riu a bom rir, brincou, ridicularizou os jogos políticos no seu país (na altura, ele era deputado), deu lições de sapiência como só ele sabe fazer, falou de tudo um pouco e, no final, despediu-se de mim com um efusivo abraço, levando de seguida a mão direita ao coração, em sinal de amizade.

 

Foi a última vez que vi Ki-Zerbo em pessoa, apesar de desde aí até pelo menos há um ano e meio termos mantido regular correspondência. Com a sua morte, vale a pena aqui recordar que ele foi autor de uma obra de referência sobre o continente africano, Histoire de l"Afrique Noire (Paris, Hatier, 1972). Foi também o primeiro negro a tornar-se professor agregado de História na Sorbonne, na década de 50, e um dos primeiros a refutar academicamente a tese de que a África Negra não tinha cultura nem história. Natural de Toma, no então Alto Volta, fez os estudos liceais em Bamako,  no Mali, onde ganhou uma bolsa de estudo para a Universidade de Paris. No final dos anos 50, regressou à África Negra e instalou-se em Dacar, onde criou o Movimento de Libertação Nacional, uma estrutura fundamental na dinamização dos movimentos  independentistas dos países da África Ocidental. Exilado durante longos anos, voltou ao Burkina Fasso em 1993 e fundou, no ano seguinte, o Partido para a Democracia e o Progresso. membro da Internacional Socialista. Pertenceu ainda ao Conselho Executivo da UNESCO e foi deputado à Assembleia Nacional. Para Quando África? a longa entrevista que concedeu a René Holenstein, foi publicada em Portugal pela Campo das Letras, em Março deste ano.

 

Os nossos pêsames à família enlutada e paz à alma de Joseph Ki-Zerbo!

 

 

 

 



publicado por jambros às 16:32
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